quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Sociolinguística

A sociolinguística é a ciência que tem como objeto de estudo as correlações entre a estrutura linguística e o fator social (BAGNO, p. 43), é a área da linguística que estuda as relações entre linguagem e sociedade, uma vez que os seres humanos vivem organizados em sociedades e são detentores de um sistema de comunicação oral, uma língua. Mas foi com o surgimento do termo sociolinguística, a partir de 1953, como mencionado antes, que os estudos sobre as relações entre língua e sociedade ganharam destaque no cenário internacional, muito embora tenham ocorrido sérias divergências de opiniões entre os estudiosos da sociolinguística.
O ano de1964 é o marco da eclosão da sociolinguística nos Estados Unidos com o primordial incentivo e colaboração de W. Bright. Os registros de Calvet (2002 p. 28-29) nos informam que:

(...) 25 pesquisadores se reuniram em Los Angeles para uma conferência sobre a sociolinguística. 8 eram da UCLA, a universidade que organizou a conferência, 15 outros eram americanos e só 2 dois participantes vinham de outro país (Iugoslávia), mas estavam temporariamente na UCLA. (Grifo nosso).


Na concepção de Bright (1966 apud CALVET, 2002, p. 29), o escopo da sociolinguística seria mostrar a sistemática covariação da linguística e da estrutura social, e, talvez até mostrar uma relação causal numa ou noutra direção. Três são os fatores que condicionam a variação na língua: o emissor, o receptor e o contexto e, por isso, dever-se-iam apresentar relevância nos estudos dos grupos de pesquisadores da linguagem formados após a realização do congresso. Preti (1977) ao enfatizar a relevância e objeto de estudo da sociolinguística menciona a opinião de Bright como um norteamento para as pesquisas empreendidas pelos estudiosos sociolinguísticos.[1]

William Bright, um dos mais importantes especialistas norte-americanos, a sociolinguística abordaria problemas que vão além das simples relações entre língua e sociedade, objeto de estudo da sociologia da linguagem, porque sua finalidade seria a comparação da estrutura linguística com a estrutura social. (p. 6)

A concepção acima defendida corrobora para que se comece a cultivar entre os linguistas o entendimento de que a língua é variável e instável e a diversidade linguística é um fator incontestável. Labov (1966)[2], precursor da sociolinguística variacionista, advoga que a variação existe em todas as línguas naturais humanas, é intrínseca ao sistema linguístico e, por isso, ‘infreável’. 
É importante ressaltar, conforme Elia (1987) o debate que se acendeu no campo da sociolinguística, verificado no confronto de posições de Bernstein e William Labov a respeito da maneira de interpretar as oposições dos níveis socioletais numa determinada comunidade linguística. Enquanto o primeiro sustenta a teoria ou hipótese do “Déficit”, o segundo opta pela a das “Regras variáveis.”.
Bernstein (1975, apud ELIA, 1987) observou diferenças linguísticas decorrentes de fatores de ordem social, a priori falava em classe média ou superior e classe baixa ou inferior, mais tarde resolveu adotar os termos código restrito e código elaborado, este se caracterizava por apresentar sintaxe regular e procedimentos gramaticais adequados, já aquele possuía frases gramaticalmente pobres, mal construídas, poucas e repetidas conjunções, tais diferenças linguísticas acarretariam implicações psicológicas no sentido de que entravariam a capacidade cognitiva do menor quando se tratasse de conceituar conhecimentos.
Em outras palavras, para o autor os alunos provenientes das classes menos favorecidas chegarão à escola apresentando uma deficiente formação cognitiva, fruto do ambiente familiar e com certeza teriam um rendimento bem menor. Para superar este “déficit” é que Bernstein propõe um programa educacional supletivo que restitua ao aluno intelectualmente deficitário o suporte de conhecimentos linguísticos que o habilitem a emparelhar com os colegas da classe média.
Labov (1966, apud ELLIA, 1983), por sua vez, verificou que variações linguísticas ocorriam em função de influências de fatores de ordem social, e por isso, conclui: “É impossível compreender a progressão de uma mudança na língua fora da vida social da comunidade onde ela se produz.” Após suas pesquisas não concorda com a teoria de Bernstein (a do déficit linguístico que levaria a um déficit mental). Isto é, não concorda com a posição dos que julgam que um vocabulário “pobre” e uma gramática “pobre” levem a uma situação de inferioridade intelectual, o que justificaria uma educação compensatória para eliminar esse déficit. (TARALLO, 1994, p.7). Portanto, é possível concluir que aos estudos sociolinguísticos de Labov são atribuídos valores sociais a todas as variantes e, assim, a heterogeneidade é aceitável e coerente enquanto fruto da diversidade social; nesse sentido, em uma língua há, na verdade, muitas línguas.










[1] Havia profundas discussões sobre qual seria realmente o campo de atuação da sociolinguística e da sociologia da linguagem.
[2] Professor de Linguística da Universidade da Pensilvânia, considerado pelos pesquisadores da linguagem como precursor da Sociolinguística Variacionista ou Teoria da Variação. Para ele o objeto de estudo da sociolinguística é a língua, o instrumento que as pessoas usam para se comunicar com outros na vida cotidiana.

2 comentários:

  1. Olá, gostaria de saber qual é o ano da referência citando (BAGNO, p 43)? Obrigado!

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  2. BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação
    linguística. Parábola Editorial. São Paulo. 2007.
    BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. Editora Contexto. 15.
    ed. São Paulo. 2006.

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