quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A LÍNGUA E SUAS VARIEDADES


A LÍNGUA E SUAS VARIEDADES

A diversidade linguística é um fator incontestável e a tendência à variação é fenômeno universal. Segundo Labov (1983), a variação existe em todas as línguas naturais humanas, é inerente ao sistema linguístico, ocorre na fala de uma comunidade e, inclusive, na fala de uma mesma pessoa. Isto significa que a variação sempre existiu e sempre existirá independente de qualquer atuação normativa.
É possível comprovar este fenômeno tendo como parâmetro os estudos no âmbito sociolinguístico realizados em comunidades de fala, nas quais se constata imediatamente a existência de diferentes modos de falar – variedades linguísticas – que formam o seu repertório verbal. E isso ocorre porque a língua mantém uma relação imediata com as transformações ocorridas na sociedade; elas estão indissoluvelmente entrelaçadas, são interdependentes, uma influencia a outra, uma dá suporte a outra. Por esse motivo é que nenhuma língua se apresenta como entidade homogênea, todas são representadas por um conjunto de variedades, sendo assim, impossível separar língua de variação; elas formam um todo indissociável, corroborando para a não-existência de uma língua pura, igual, uniforme, sem variedades.
Impossível é conceber as diferenças sociolinguísticas sem relacioná-las com a vivência dos falantes, pois “a variação linguística é resultado de pressões sociais exercidas sobre um determinado povo” (LABOV, 1966, p.45-47). E culmina, consequentemente, em sua construção identitária. No entendimento de Calvet (2002), a variação linguística é a identidade de uma comunidade/região pela qual é formada sua “etiqueta linguística”, que é exatamente o registro da diversidade da linguagem de um povo”.
A concepção de que a língua é variável, multifacetada e instável é uma realidade entre os estudiosos da área. Aceitar, entender e conviver com a heterogeneidade linguística é que tem causado transtornos a muitos falantes, principalmente aos provenientes de classes abastardas que vêem a língua como um patrimônio seu, abstendo-a das possiblidades variacionistas. Quando se apreende a língua como fator prioritariamente de unificação linguística, diminui-se sobremaneira, a importância dada ao fenômeno da diversidade em todos os âmbitos da sociedade, principalmente na escola.
São muitos os eixos que orientam a variação linguística. As diferenças, sabemos, são de várias ordens. Para Bagno (2007, p. 46) as variações sociolinguísticas podem ser assim classificadas: variação diatópica ou geográfica1, variação diastrática ou social2, variação diamésica3, variação diafásica ou estilística4, variação diacrônica ou histórica5. E essas variações são motivadas por fatores extralinguísticos de ordem geográfica, status econômico, grau de escolarização, idade, sexo, tempo, mercado de trabalho, redes sociais, etc. A influência dos referidos fatores provoca a diversidade nos níveis linguísticos fonético-fonológico, morfológico, sintático, semântico, lexicais e estilístico-pragmáticos.
Para Camacho (1988), Bagno (2007, p.49), existem múltiplos fatores originando as variedades linguísticas, as quais recebem diferentes denominações:
Dialetos – é a designação de variedades faladas por comunidades linguísticas demarcadas geograficamente.
Socioletos – indica as variedades faladas por comunidades demarcadas socialmente. É o modo linguístico estandardizado que se presta a atender a comunicação pública e a educação.
Idioleto - é um modo linguístico que caracteriza o falar de um individuo, isto é, o léxico especializado e/ou a gramática de certas atividades ou profissões.
Etnoleto - designa tipo de variedade de uma linguagem adotado por um grupo étnico.
Ecoleto - um idioleto adotado por pessoas de uma casa.
Cronoleto - indica o tipo de variedade adotado por pessoas de uma faixa etária particular, de uma geração.
Por isso dizemos que um idioma como português não é senão uma cômoda etiqueta com que se designa um conjunto de variedades que se distribuem segundo as classes sociais, as situações de comunicação e segundo a região geográfica. E se nos colocarmos na perspectiva histórica, ainda temos que admitir que com "Língua portuguesa" ficam abrigadas todas as variedades utilizadas ao longo desses séculos de uma mesma tradição linguística.
Nesse sentido, não podemos desconsiderar que a língua é viva, haja vista que quem faz uso dela são os sujeitos em constante processo de transformação e que, assim como há diferenciação de classes e diversidade cultural na sociedade, também há a diversidade linguística, já que as diferenças culturais, sociais, regionais e tantas outras refletem na língua, instalando-se uma multiplicidade de linguagem.
Não precisamos de muitos esforços para comprovar o fato de que a língua é um conjunto heterogêneo de variedades. Para isso, basta observarmos a nossa própria maneira de falar, ou seja, a forma como variamos a nossa escolha vocabular, as estruturas morfossintáticas e a maneira de pronunciarmos determinadas palavras em função de uma determinada situação. Com certeza, todos poderão perceber que a forma que utilizamos para a nossa comunicação é de um jeito se estamos conversando com familiares ou pessoas mais íntimas, é de outro jeito se estamos falando com quem temos um relacionamento mais distante. E nesse sentido, essa fala será altamente influenciada pela situação que estamos vivendo e pelo nosso interlocutor, isto é, pela pessoa ou pessoas com quem estamos conversando. As características desse interlocutor são decisivas na medida em que alteramos a nossa forma de expressão de acordo com o grau de intimidade que temos com ele, com a formação ou escolaridade que ele tem, com a posição que ele exerce na organização social de que participamos. Conforme Camacho (1988, p. 29-30) “não é provável que um indivíduo iletrado se expresse de modo idêntico a um outro com nível cultural mediano ou altamente cultivado”.
Quanto ao espaço, também é fácil perceber que a língua falada nas diferentes regiões não é a mesma. Variam, de região para região, a forma de pronunciarmos as palavras, o vocabulário e, inclusive, a forma que utilizamos para estruturar algumas orações.
É natural encontrar variações na forma como os homens e as mulheres falam, diferenças de linguagem de uma geração para outra, de um grupo profissional para outro. É comum, também, que as pessoas que tiveram pouca ou nenhuma escolarização usem variedades do português diferentes daquelas usadas pelas pessoas que têm acesso regular ao sistema de ensino.
Comprovamos, ainda, que a língua varia no tempo. Para isso, é suficiente compararmos textos contemporâneos com textos de uma época anterior qualquer. Quanto mais afastada for essa época, encontraremos um número maior de exemplos de mudanças. O que aconteceu? A língua portuguesa foi deturpando-se de uma geração para outra ou foi aperfeiçoando-se? Nem uma coisa nem outra. Por isso, é desaconselhável dizer que a língua evolui.
Utilizando esse termo, fica a impressão de que ela foi se corrigindo, ela foi melhorando com o decorrer do tempo e essa é uma conclusão falsa. A Língua Portuguesa utilizada nos séculos anteriores era ideal para as necessidades dos seus falantes. Da mesma forma, a língua portuguesa que utilizamos hoje preenche todos os requisitos de que precisamos. Cientificamente, portanto, a única afirmação que pode ser feita com relação a esse fato é que a língua muda, varia, diversifica-se.
Conforme Bortoni-Ricardo (2005, p.14) “O comportamento linguístico é um indicador claro da estratificação social”. E isso nos leva a concluir que as diferenças linguísticas refletem sobre maneira a má distribuição de renda porque passa a sociedade, tirando o direito de muitos a terem acesso às culturas prestigiadas, incluindo as de linguagem oral e escrita. E, mesmo com os estudos atuais acerca da mudança e da variação linguísticas, muitos usuários da língua percebem as variações como um elemento de desqualificação do sujeito no que se refere a sua maneira de se expressar. O mais grave é que esse preconceito toma proporções sérias quando, além de classificar essa fala como "errada", associa a forma de falar à capacidade intelectual do falante. Assim, acredita-se que as pessoas que falam "errado" são ignorantes, ou seja, desprovidas de capacidade de raciocínio, visto que, para estes as diferenças nos usos da língua são reflexos da falta de capacidade de pensamento, raciocínio, etc.
O fato é que as “variações existem não porque as pessoas são ignorantes ou indisciplinadas; existem, porque as línguas são fatos sociais, situados num tempo e num espaço concretos, com funções definidas” (ANTUNES 2007, p. 104). Concepção esta que leva a Linguística a verificar a inexistência de variedade de língua inferior ou superior. O uso de uma língua, mesmo dentro de sua variedade, é lógico, complexo e regido por regras gramaticais.
Conceber a língua, portanto, como um fator homogêneo é desprezar as possibilidades comunicativas dos falantes e ignorar a existência de uma sociedade diversa, pluralizada, heterogênea que pensa e age diferente e ao mesmo tempo é vítima de uma discriminação sociocultural sem precedentes, embasada em um padrão linguístico usual a uma minoria privilegiada. Com isso, os usuários das formas não-padronizadas inerentes às instabilidades da língua correm o risco de serem vítimas de preconceito e estigmatização linguística, o que interfere diretamente na possibilidade de mudança de estratificação social e, consequentemente, o acesso às variedades de prestígio.
A única diferença que se pode estabelecer entre essas diferentes formas de falar é uma diferença de prestígio social e, nesse ponto, vamos perceber que o prestígio de uma variedade está diretamente relacionado com o prestígio de seus falantes dentro da organização social. As classes sociais desfavorecidas economicamente não gozam de nenhum prestígio dentro da sociedade. Consequentemente, a variedade linguística usada pelas pessoas dessas classes não tem, também, prestígio algum. A diferença estabelecida é, portanto, apenas uma diferença de valoração social e isso dá margem, enfatizamos, a muitos preconceitos reforçando a separação social existente.
Muitos indivíduos contribuem para modificação e transformação da língua, daí entendê-la e aceitá-la como uma diversidade na uniformidade linguística torna-se necessário afim de que o preconceito dê lugar ao respeito, além de despertar o interesse em observar as peculiaridades linguísticas de cada tempo, de cada região, de cada grupo social, de cada falante, atentando sempre para o fato de que nenhuma forma de língua deixa de ser submetida ao processo da diversidade, isso porque ela não pode ser um bem de um só e sim um bem de todos. É uma atividade social e coletiva que se presta a atender às necessidades usuais de cada falante.
1 Variações que ocorrem de uma região para outra.
2 Variações decorrentes de um grupo social para outro.
3 Variações que ocorrem entre a modalidade oral e a escrita.
4 Variações que ocorrem de uma situação de comunicação para outra.
5 Variações decorrentes de uma época para outra.

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