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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A Sociolinguística
A sociolinguística é a ciência que tem como objeto de estudo as correlações entre a estrutura linguística e o fator social (BAGNO, p. 43), é a área da linguística que estuda as relações entre linguagem e sociedade, uma vez que os seres humanos vivem organizados em sociedades e são detentores de um sistema de comunicação oral, uma língua. Mas foi com o surgimento do termo sociolinguística, a partir de 1953, como mencionado antes, que os estudos sobre as relações entre língua e sociedade ganharam destaque no cenário internacional, muito embora tenham ocorrido sérias divergências de opiniões entre os estudiosos da sociolinguística.
O ano de1964 é o marco da eclosão da sociolinguística nos Estados Unidos com o primordial incentivo e colaboração de W. Bright. Os registros de Calvet (2002 p. 28-29) nos informam que:
(...) 25 pesquisadores se reuniram em Los Angeles para uma conferência sobre a sociolinguística. 8 eram da UCLA, a universidade que organizou a conferência, 15 outros eram americanos e só 2 dois participantes vinham de outro país (Iugoslávia), mas estavam temporariamente na UCLA. (Grifo nosso).
Na concepção de Bright (1966 apud CALVET, 2002, p. 29), o escopo da sociolinguística seria mostrar a sistemática covariação da linguística e da estrutura social, e, talvez até mostrar uma relação causal numa ou noutra direção. Três são os fatores que condicionam a variação na língua: o emissor, o receptor e o contexto e, por isso, dever-se-iam apresentar relevância nos estudos dos grupos de pesquisadores da linguagem formados após a realização do congresso. Preti (1977) ao enfatizar a relevância e objeto de estudo da sociolinguística menciona a opinião de Bright como um norteamento para as pesquisas empreendidas pelos estudiosos sociolinguísticos.[1]
William Bright, um dos mais importantes especialistas norte-americanos, a sociolinguística abordaria problemas que vão além das simples relações entre língua e sociedade, objeto de estudo da sociologia da linguagem, porque sua finalidade seria a comparação da estrutura linguística com a estrutura social. (p. 6)
A concepção acima defendida corrobora para que se comece a cultivar entre os linguistas o entendimento de que a língua é variável e instável e a diversidade linguística é um fator incontestável. Labov (1966)[2], precursor da sociolinguística variacionista, advoga que a variação existe em todas as línguas naturais humanas, é intrínseca ao sistema linguístico e, por isso, ‘infreável’.
É importante ressaltar, conforme Elia (1987) o debate que se acendeu no campo da sociolinguística, verificado no confronto de posições de Bernstein e William Labov a respeito da maneira de interpretar as oposições dos níveis socioletais numa determinada comunidade linguística. Enquanto o primeiro sustenta a teoria ou hipótese do “Déficit”, o segundo opta pela a das “Regras variáveis.”.
Bernstein (1975, apud ELIA, 1987) observou diferenças linguísticas decorrentes de fatores de ordem social, a priori falava em classe média ou superior e classe baixa ou inferior, mais tarde resolveu adotar os termos código restrito e código elaborado, este se caracterizava por apresentar sintaxe regular e procedimentos gramaticais adequados, já aquele possuía frases gramaticalmente pobres, mal construídas, poucas e repetidas conjunções, tais diferenças linguísticas acarretariam implicações psicológicas no sentido de que entravariam a capacidade cognitiva do menor quando se tratasse de conceituar conhecimentos.
Em outras palavras, para o autor os alunos provenientes das classes menos favorecidas chegarão à escola apresentando uma deficiente formação cognitiva, fruto do ambiente familiar e com certeza teriam um rendimento bem menor. Para superar este “déficit” é que Bernstein propõe um programa educacional supletivo que restitua ao aluno intelectualmente deficitário o suporte de conhecimentos linguísticos que o habilitem a emparelhar com os colegas da classe média.
Labov (1966, apud ELLIA, 1983), por sua vez, verificou que variações linguísticas ocorriam em função de influências de fatores de ordem social, e por isso, conclui: “É impossível compreender a progressão de uma mudança na língua fora da vida social da comunidade onde ela se produz.” Após suas pesquisas não concorda com a teoria de Bernstein (a do déficit linguístico que levaria a um déficit mental). Isto é, não concorda com a posição dos que julgam que um vocabulário “pobre” e uma gramática “pobre” levem a uma situação de inferioridade intelectual, o que justificaria uma educação compensatória para eliminar esse déficit. (TARALLO, 1994, p.7). Portanto, é possível concluir que aos estudos sociolinguísticos de Labov são atribuídos valores sociais a todas as variantes e, assim, a heterogeneidade é aceitável e coerente enquanto fruto da diversidade social; nesse sentido, em uma língua há, na verdade, muitas línguas.
[1] Havia profundas discussões sobre qual seria realmente o campo de atuação da sociolinguística e da sociologia da linguagem.
[2] Professor de Linguística da Universidade da Pensilvânia, considerado pelos pesquisadores da linguagem como precursor da Sociolinguística Variacionista ou Teoria da Variação. Para ele o objeto de estudo da sociolinguística é a língua, o instrumento que as pessoas usam para se comunicar com outros na vida cotidiana.
A LÍNGUA E SUAS VARIEDADES
A LÍNGUA E SUAS VARIEDADES
A diversidade linguística é um fator incontestável e a tendência à variação é fenômeno universal. Segundo Labov (1983), a variação existe em todas as línguas naturais humanas, é inerente ao sistema linguístico, ocorre na fala de uma comunidade e, inclusive, na fala de uma mesma pessoa. Isto significa que a variação sempre existiu e sempre existirá independente de qualquer atuação normativa.
É possível comprovar este fenômeno tendo como parâmetro os estudos no âmbito sociolinguístico realizados em comunidades de fala, nas quais se constata imediatamente a existência de diferentes modos de falar – variedades linguísticas – que formam o seu repertório verbal. E isso ocorre porque a língua mantém uma relação imediata com as transformações ocorridas na sociedade; elas estão indissoluvelmente entrelaçadas, são interdependentes, uma influencia a outra, uma dá suporte a outra. Por esse motivo é que nenhuma língua se apresenta como entidade homogênea, todas são representadas por um conjunto de variedades, sendo assim, impossível separar língua de variação; elas formam um todo indissociável, corroborando para a não-existência de uma língua pura, igual, uniforme, sem variedades.
Impossível é conceber as diferenças sociolinguísticas sem relacioná-las com a vivência dos falantes, pois “a variação linguística é resultado de pressões sociais exercidas sobre um determinado povo” (LABOV, 1966, p.45-47). E culmina, consequentemente, em sua construção identitária. No entendimento de Calvet (2002), a variação linguística é a identidade de uma comunidade/região pela qual é formada sua “etiqueta linguística”, que é exatamente o registro da diversidade da linguagem de um povo”.
A concepção de que a língua é variável, multifacetada e instável é uma realidade entre os estudiosos da área. Aceitar, entender e conviver com a heterogeneidade linguística é que tem causado transtornos a muitos falantes, principalmente aos provenientes de classes abastardas que vêem a língua como um patrimônio seu, abstendo-a das possiblidades variacionistas. Quando se apreende a língua como fator prioritariamente de unificação linguística, diminui-se sobremaneira, a importância dada ao fenômeno da diversidade em todos os âmbitos da sociedade, principalmente na escola.
São muitos os eixos que orientam a variação linguística. As diferenças, sabemos, são de várias ordens. Para Bagno (2007, p. 46) as variações sociolinguísticas podem ser assim classificadas: variação diatópica ou geográfica1, variação diastrática ou social2, variação diamésica3, variação diafásica ou estilística4, variação diacrônica ou histórica5. E essas variações são motivadas por fatores extralinguísticos de ordem geográfica, status econômico, grau de escolarização, idade, sexo, tempo, mercado de trabalho, redes sociais, etc. A influência dos referidos fatores provoca a diversidade nos níveis linguísticos fonético-fonológico, morfológico, sintático, semântico, lexicais e estilístico-pragmáticos.
Para Camacho (1988), Bagno (2007, p.49), existem múltiplos fatores originando as variedades linguísticas, as quais recebem diferentes denominações:
Dialetos – é a designação de variedades faladas por comunidades linguísticas demarcadas geograficamente.
Socioletos – indica as variedades faladas por comunidades demarcadas socialmente. É o modo linguístico estandardizado que se presta a atender a comunicação pública e a educação.
Idioleto - é um modo linguístico que caracteriza o falar de um individuo, isto é, o léxico especializado e/ou a gramática de certas atividades ou profissões.
Etnoleto - designa tipo de variedade de uma linguagem adotado por um grupo étnico.
Ecoleto - um idioleto adotado por pessoas de uma casa.
Cronoleto - indica o tipo de variedade adotado por pessoas de uma faixa etária particular, de uma geração.
Por isso dizemos que um idioma como português não é senão uma cômoda etiqueta com que se designa um conjunto de variedades que se distribuem segundo as classes sociais, as situações de comunicação e segundo a região geográfica. E se nos colocarmos na perspectiva histórica, ainda temos que admitir que com "Língua portuguesa" ficam abrigadas todas as variedades utilizadas ao longo desses séculos de uma mesma tradição linguística.
Nesse sentido, não podemos desconsiderar que a língua é viva, haja vista que quem faz uso dela são os sujeitos em constante processo de transformação e que, assim como há diferenciação de classes e diversidade cultural na sociedade, também há a diversidade linguística, já que as diferenças culturais, sociais, regionais e tantas outras refletem na língua, instalando-se uma multiplicidade de linguagem.
Não precisamos de muitos esforços para comprovar o fato de que a língua é um conjunto heterogêneo de variedades. Para isso, basta observarmos a nossa própria maneira de falar, ou seja, a forma como variamos a nossa escolha vocabular, as estruturas morfossintáticas e a maneira de pronunciarmos determinadas palavras em função de uma determinada situação. Com certeza, todos poderão perceber que a forma que utilizamos para a nossa comunicação é de um jeito se estamos conversando com familiares ou pessoas mais íntimas, é de outro jeito se estamos falando com quem temos um relacionamento mais distante. E nesse sentido, essa fala será altamente influenciada pela situação que estamos vivendo e pelo nosso interlocutor, isto é, pela pessoa ou pessoas com quem estamos conversando. As características desse interlocutor são decisivas na medida em que alteramos a nossa forma de expressão de acordo com o grau de intimidade que temos com ele, com a formação ou escolaridade que ele tem, com a posição que ele exerce na organização social de que participamos. Conforme Camacho (1988, p. 29-30) “não é provável que um indivíduo iletrado se expresse de modo idêntico a um outro com nível cultural mediano ou altamente cultivado”.
Quanto ao espaço, também é fácil perceber que a língua falada nas diferentes regiões não é a mesma. Variam, de região para região, a forma de pronunciarmos as palavras, o vocabulário e, inclusive, a forma que utilizamos para estruturar algumas orações.
É natural encontrar variações na forma como os homens e as mulheres falam, diferenças de linguagem de uma geração para outra, de um grupo profissional para outro. É comum, também, que as pessoas que tiveram pouca ou nenhuma escolarização usem variedades do português diferentes daquelas usadas pelas pessoas que têm acesso regular ao sistema de ensino.
Comprovamos, ainda, que a língua varia no tempo. Para isso, é suficiente compararmos textos contemporâneos com textos de uma época anterior qualquer. Quanto mais afastada for essa época, encontraremos um número maior de exemplos de mudanças. O que aconteceu? A língua portuguesa foi deturpando-se de uma geração para outra ou foi aperfeiçoando-se? Nem uma coisa nem outra. Por isso, é desaconselhável dizer que a língua evolui.
Utilizando esse termo, fica a impressão de que ela foi se corrigindo, ela foi melhorando com o decorrer do tempo e essa é uma conclusão falsa. A Língua Portuguesa utilizada nos séculos anteriores era ideal para as necessidades dos seus falantes. Da mesma forma, a língua portuguesa que utilizamos hoje preenche todos os requisitos de que precisamos. Cientificamente, portanto, a única afirmação que pode ser feita com relação a esse fato é que a língua muda, varia, diversifica-se.
Conforme Bortoni-Ricardo (2005, p.14) “O comportamento linguístico é um indicador claro da estratificação social”. E isso nos leva a concluir que as diferenças linguísticas refletem sobre maneira a má distribuição de renda porque passa a sociedade, tirando o direito de muitos a terem acesso às culturas prestigiadas, incluindo as de linguagem oral e escrita. E, mesmo com os estudos atuais acerca da mudança e da variação linguísticas, muitos usuários da língua percebem as variações como um elemento de desqualificação do sujeito no que se refere a sua maneira de se expressar. O mais grave é que esse preconceito toma proporções sérias quando, além de classificar essa fala como "errada", associa a forma de falar à capacidade intelectual do falante. Assim, acredita-se que as pessoas que falam "errado" são ignorantes, ou seja, desprovidas de capacidade de raciocínio, visto que, para estes as diferenças nos usos da língua são reflexos da falta de capacidade de pensamento, raciocínio, etc.
O fato é que as “variações existem não porque as pessoas são ignorantes ou indisciplinadas; existem, porque as línguas são fatos sociais, situados num tempo e num espaço concretos, com funções definidas” (ANTUNES 2007, p. 104). Concepção esta que leva a Linguística a verificar a inexistência de variedade de língua inferior ou superior. O uso de uma língua, mesmo dentro de sua variedade, é lógico, complexo e regido por regras gramaticais.
Conceber a língua, portanto, como um fator homogêneo é desprezar as possibilidades comunicativas dos falantes e ignorar a existência de uma sociedade diversa, pluralizada, heterogênea que pensa e age diferente e ao mesmo tempo é vítima de uma discriminação sociocultural sem precedentes, embasada em um padrão linguístico usual a uma minoria privilegiada. Com isso, os usuários das formas não-padronizadas inerentes às instabilidades da língua correm o risco de serem vítimas de preconceito e estigmatização linguística, o que interfere diretamente na possibilidade de mudança de estratificação social e, consequentemente, o acesso às variedades de prestígio.
A única diferença que se pode estabelecer entre essas diferentes formas de falar é uma diferença de prestígio social e, nesse ponto, vamos perceber que o prestígio de uma variedade está diretamente relacionado com o prestígio de seus falantes dentro da organização social. As classes sociais desfavorecidas economicamente não gozam de nenhum prestígio dentro da sociedade. Consequentemente, a variedade linguística usada pelas pessoas dessas classes não tem, também, prestígio algum. A diferença estabelecida é, portanto, apenas uma diferença de valoração social e isso dá margem, enfatizamos, a muitos preconceitos reforçando a separação social existente.
Muitos indivíduos contribuem para modificação e transformação da língua, daí entendê-la e aceitá-la como uma diversidade na uniformidade linguística torna-se necessário afim de que o preconceito dê lugar ao respeito, além de despertar o interesse em observar as peculiaridades linguísticas de cada tempo, de cada região, de cada grupo social, de cada falante, atentando sempre para o fato de que nenhuma forma de língua deixa de ser submetida ao processo da diversidade, isso porque ela não pode ser um bem de um só e sim um bem de todos. É uma atividade social e coletiva que se presta a atender às necessidades usuais de cada falante.
1 Variações que ocorrem de uma região para outra.
3 Variações que ocorrem entre a modalidade oral e a escrita.
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