sábado, 18 de fevereiro de 2017

A LÍNGUA PADRÃO

Conforme o registro escrito da história dos estudos linguísticos, a padronização da língua é historicamente delineada pelos seus falantes. Essa padronização é determinada mediante a realidade cultural, política e social de cada época. Como a realidade sofre modificação diacronicamente, a tendência é que o que se considera como forma padrão hoje pode tornar-se não-padrão, e o que é considerado não-padrão pode ser estabelecido como padrão. A língua, por estar indissociável à sociedade acompanha esse transcurso, embora tenhamos a ignota pretensão de mantê-la estática, imutável. 
Representada por um conjunto diversificado de formas linguísticas, ela constitui um dos elementos formadores e responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade e, por esse motivo, deve atender a todos. E é justamente nesse ponto que se torna relevante o seu estudo, quando concebido por meio de um prisma sensível e atento às sutilezas concretas de usos discursivos, de forma que todas as variedades da língua recebam um tratamento respeitoso, sem a preconização de se estabelecer unicamente uma variedade dominante, que exerça total supremacia e seja excepcionalmente a correta, a padrão, até porque nenhum registro linguístico é uniforme quando usado em situações adversas, mesmo aquele condecorado pela comunidade dos letrados, o registro padrão ou língua padrão admite variações em diferentes sentidos.
Forçar as pessoas a falar e escrever igualmente, tendo como recurso o mesmo padrão de linguagem, significa ignorar as diversidades de comportamentos linguísticos existentes em nosso meio, cada um atuando de maneira particular, com o propósito de atender adequadamente suas necessidades. Daí, não ser recomendável que se intitule esta ou aquela variação linguística como sendo a língua padrão, sob o risco de inferiorizar outras formas, que podem ser até mais apropriadas a determinados contextos.
A língua padrão na sua gênese é a língua idealizada pelo poder político, econômico e social. Deseja-se estar no topo da cadeia, justamente no lugar destinado as classes privilegiadas, detentoras do conhecimento sistematizado, escolarizado, deste modo intocável, com total credibilidade, referência a todas as pessoas.
Para assegurar o cultivo da língua padrão vários direcionamentos foram estabelecidos. Um deles é a própria instituição escolar que trabalha para transmitir e conservar a língua "correta", “exata”. Os próprios usuários da língua fortalecem outra frente que luta para apropriar-se a língua padrão, visando atenuar a censura, discriminação e empecilho à promoção social.
São inegáveis as vantagens à existência da língua-padrão, porém descrevê-la rigorosamente ou dizer onde vamos encontrá-la tem ficado cada vez mais escasso. As gramáticas tradicionais, como já mencionamos, baseiam-se normalmente em exemplos de textos da literatura clássica, que, muitas vezes, estão distantes do padrão linguístico real do português Brasileiro até mesmo o escrito . Portanto, se até mesmo os falantes da norma culta, aqueles que têm acesso às regras gramaticais padronizadas, incutidas no processo de escolarização, exprimem-se usualmente contrários a estas regras, podemos, então, considerá-las como norma ou língua padrão/culta?
Todavia, justificamos a necessidade do ensino da língua-padrão desde que ela seja colocada, linguisticamente, como uma variedade igual às outras, mas que usufrui de um prestígio social diferente por ser a língua do poder político, econômico e social. Assim, a ênfase nessa diferenciação contribui para que o aluno perceba nas formas linguísticas o valor intrínseco de cada uma e o tratamento social que certas variedades adquirem nos estratos das sociedades de cada período histórico.