Conforme o
registro escrito da história dos estudos linguísticos, a padronização da língua
é historicamente delineada pelos seus falantes. Essa padronização é determinada
mediante a realidade cultural, política e social de cada época. Como a
realidade sofre modificação diacronicamente, a tendência é que o que se
considera como forma padrão hoje pode tornar-se não-padrão, e o que é
considerado não-padrão pode ser estabelecido como padrão. A língua, por estar
indissociável à sociedade acompanha esse transcurso, embora tenhamos a ignota
pretensão de mantê-la estática, imutável.
Representada
por um conjunto diversificado de formas linguísticas, ela constitui um dos
elementos formadores e responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade e, por
esse motivo, deve atender a todos. E é justamente nesse ponto que se torna
relevante o seu estudo, quando concebido por meio de um prisma sensível e
atento às sutilezas concretas de usos discursivos, de forma que todas as
variedades da língua recebam um tratamento respeitoso, sem a preconização de se
estabelecer unicamente uma variedade dominante, que exerça total supremacia e
seja excepcionalmente a correta, a padrão, até porque nenhum registro
linguístico é uniforme quando usado em situações adversas, mesmo aquele condecorado
pela comunidade dos letrados, o registro padrão ou língua padrão admite
variações em diferentes sentidos.
Forçar as
pessoas a falar e escrever igualmente, tendo como recurso o mesmo padrão de
linguagem, significa ignorar as diversidades de comportamentos linguísticos
existentes em nosso meio, cada um atuando de maneira particular, com o
propósito de atender adequadamente suas necessidades. Daí, não ser recomendável
que se intitule esta ou aquela variação linguística como sendo a língua padrão,
sob o risco de inferiorizar outras formas, que podem ser até mais apropriadas a
determinados contextos.
A língua
padrão na sua gênese é a língua idealizada pelo poder político, econômico e
social. Deseja-se estar no topo da cadeia, justamente no lugar destinado as classes
privilegiadas, detentoras do conhecimento sistematizado, escolarizado, deste
modo intocável, com total credibilidade, referência a todas as pessoas.
Para assegurar o cultivo da
língua padrão vários direcionamentos foram estabelecidos. Um deles é a própria
instituição escolar que trabalha para transmitir e conservar a língua
"correta", “exata”. Os próprios usuários da língua fortalecem outra
frente que luta para apropriar-se a língua padrão, visando atenuar a censura,
discriminação e empecilho à promoção social.
São inegáveis
as vantagens à existência da língua-padrão, porém descrevê-la rigorosamente ou
dizer onde vamos encontrá-la tem ficado cada vez mais escasso. As gramáticas
tradicionais, como já mencionamos, baseiam-se normalmente em exemplos de textos
da literatura clássica, que, muitas vezes, estão distantes do padrão
linguístico real do português Brasileiro até mesmo o escrito . Portanto, se até
mesmo os falantes da norma culta, aqueles que têm acesso às regras gramaticais
padronizadas, incutidas no processo de escolarização, exprimem-se usualmente
contrários a estas regras, podemos, então, considerá-las como norma ou língua
padrão/culta?
Todavia,
justificamos a necessidade do ensino da língua-padrão desde que ela seja
colocada, linguisticamente, como uma variedade igual às outras, mas que usufrui
de um prestígio social diferente por ser a língua do poder político, econômico
e social. Assim, a ênfase nessa diferenciação contribui para que o aluno
perceba nas formas linguísticas o valor intrínseco de cada uma e o tratamento
social que certas variedades adquirem nos estratos das sociedades de cada
período histórico.