A norma
culta, em uma definição imediata, é a norma de língua usada pelos falantes mais
escolarizados da língua, aqueles que têm maior proximidade com a modalidade
escrita e, portanto, possuem uma fala mais próxima das regras de tal
modalidade. É a “ensinada” na escola, empregada nos textos oficiais,
científicos e literários.
Todavia,
o caráter pernóstico do adjetivo “culto” pode render pressupostos equivocados,
como oposição a uma norma “inculta”, totalmente desprovida de cultura. A existência
de tal presunção provoca comentários como “fulano não sabe falar português” ou
“fulano é ignorante em português”, desconsiderando que mesmo entre os falantes
mais escolarizados, a língua varia no eixo do estilo em relação aos contextos e
aos níveis de formalidade, ficando cada vez mais distante da norma estipulada
pela gramática.
Intitular
uma norma como culta é estabelecer para um falar a concepção de “certo”,
“correto” e para outros de “errado”, “incorreto”. Bagno (2002, p. 42-43)
polemiza o tema, afirmando que a norma culta carrega consigo um rótulo já
sedimentado na sociedade. “É mais um preconceito do que um conceito
propriamente dito”, de que existe apenas uma forma certa, modelar, de falar um
idioma; justamente aquele encontrado nas obras literárias de renome e nos
tradicionais compêndios gramaticais, sendo, dessa forma, o modelo de língua
prestigiado e idealizado por uma classe minoritária de cidadãos seletos
socioculturalmente.
Em
concordância com Bagno (2002), Antunes (2007, p. 87) instrui que “a designação
de norma culta não é das melhores, do ponto de vista ideológico, pois favorece
a suposição de que aqueles que a adotam é que são cultos, têm cultura”, e essa
concepção causa “efeitos discriminatórios” aos que não dominam tal norma, os
pertencentes às classes sociais com menor acesso, principalmente na educação
formal.
Bortoni-Ricardo
(2004) propõe situações que influenciam a diversidade linguística e nos indica
as relações de classes geradoras das estruturas linguísticas dominantes.
Em toda comunidade
de fala onde convivem falantes de diversas variedades regionais, como é o caso
das grandes metrópoles brasileiras, os falantes que são detentores de maior
poder – e por isso gozam de mais prestígio – transferem esse prestígio para a variedade
linguística que falam. Assim, as variedades faladas pelos grupos de maior poder
político e econômico passam a ser vistas como variedades mais bonitas e até
mais corretas. Mas essas variedades, que ganham prestígio porque são faladas
por grupos de maior poder, nada têm de intrinsecamente superior às demais. (p.
33)
Não
agimos de forma preconceituosa porque tomamos como referência aspectos
intrinsecamente linguísticos. A língua em si não apresenta parâmetros que nos
indique a bipartição “certo e errado”, não é ela que está no cerne da discussão
e sim a importância de seus usuários[1]. É a sociedade
que se baseia em realidades socioculturais favorecidas e cristaliza modelos de
língua exemplar.
A
norma culta não deriva de nada intrínseco ao português. Não há formas ou
construções intrinsecamente erradas ou certas [...] Assim, o certo ou errado
deriva apenas de uma contingência social. Em todas as comunidades sempre se
atribui à determinada classe uma ascendência sobre as demais. A classe de
prestígio dita às normas de comportamento, a moda, o gosto por certo tipo de
música... Assim também a escolha das variedades linguísticas entre as que estão
à disposição dos falantes. Ao escolher uma, essa classe condena as outras
variedades (CASTILHO, 2002, apud Bagno, 2004, p. 185).
Dessa forma, a imposição da chamada norma culta
em detrimento de outras normas, configura a perda da identidade de um
determinado segmento social. Com isso, não se consegue uma compreensão mais
completa dos fatos linguísticos permitidos pelo sistema linguístico. Ao mesmo
tempo, deixar de ministrá-la nas escolas permite impedir o
acesso do aluno a um estrato social considerado superior, assim como seu acesso à
tradição cultural escrita. Num caso e no outro, há prejuízo no desenvolvimento
da competência comunicativa. Portanto, é imprescindível que o aluno compreenda
o maior número possível de normas a fim de obter sua plena integração na comunidade
em que está inserido.
O
cuidado em perpetuar a forma norma culta consiste exatamente no fato de se
impor uma dicotomia: de um lado a norma culta “certa”; do outro, a norma popular ou coloquial “errada”. Pois bem,
todos nós temos cultura, sabemos lidar cotidianamente com as mais diversas
situações sociais e comunicativas. Então, o
porquê da discriminação, somos sim, cultos. Isso é diferente de não ter domínio
de uma variedade linguística.[2]